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Da janela do trem, duas cidades apareciam separadas pelas águas do Rio São Francisco. De um lado, Juazeiro, na Bahia. Do outro, Petrolina, em Pernambuco. Era início de fevereiro de 1946, período em que, segundo o relato posteriormente registrado por Plácido da Rocha Pita, as águas do Velho Chico começavam a baixar.
Na estação de Piranga, antes de percorrer casas, ruas e comunidades da região, Pita observou aquela paisagem e orou pelas pessoas que viviam nas duas margens do rio. O episódio, registrado em sua autobiografia e recuperado pelo Notícias Adventistas em 2021, tornou-se uma das cenas que simbolizam o início de uma nova fase da presença adventista no Vale do São Francisco.
Oitenta anos depois, em 2026, a Igreja Adventista do Sétimo Dia no norte da Bahia retorna a esse marco para recordar uma trajetória que atravessou gerações. A chegada de Pita não representou o primeiro contato do território com a mensagem adventista — havia colportores e pequenos grupos antes disso —, mas 1946 se consolidou como um período decisivo para o fortalecimento e a expansão do trabalho na região.
Antes dos templos, das escolas e da estrutura administrativa existente atualmente, havia principalmente pessoas percorrendo o sertão, literatura sendo distribuída e famílias reunidas em torno da Bíblia.
Sementes antes do marco
Quando Pita chegou a Juazeiro em 1946, encontrou uma história que já começava a ser escrita.
Registros da Encyclopedia of Seventh-day Adventists indicam que, por volta de 1937, os colportores Josué Manin de S. Meira e Nehemias Meira trabalhavam em Juazeiro. José Pereira Sobrinho e Nicolau Barreto atuavam em Senhor do Bonfim, enquanto Daniel Pereira Filho e Valentina passaram por localidades como Irecê, Miguel Calmon e Jacobina. Além da venda de literatura, esses primeiros missionários visitavam interessados e realizavam estudos bíblicos.
Era uma atuação marcada pelo deslocamento. Livros passavam de mão em mão e os colportores seguiam entre cidades e povoados de uma região extensa, em um período no qual as distâncias representavam um desafio ainda maior.
Em 1939, outro registro importante apareceu na Fazenda Diogo, em Jaguarari. Ali surgiu o primeiro grupo adventista identificado no território que atualmente corresponde à Associação Bahia Norte. A história começou quando o patriarca da família Duarte retornou do sul da Bahia levando consigo as crenças adventistas que havia conhecido enquanto trabalhava na região cacaueira.
Juazeiro também começava a formar seu próprio núcleo. Em 1942, duas adventistas vindas de Porto Novo do Rio Corrente se estabeleceram na cidade e fizeram contato com Plácido Pita. Segundo a Enciclopédia Adventista, desse encontro surgiu a primeira Escola Sabatina registrada em Juazeiro.
Pouco a pouco, pontos separados no mapa começavam a formar uma mesma história.
1946
Foi nesse cenário que os primeiros dias de fevereiro de 1946 se tornaram um marco.
Plácido da Rocha Pita chegou a Juazeiro para desenvolver o trabalho evangelístico no Vale do São Francisco. Ao mesmo tempo em que pregava e realizava estudos bíblicos, trabalhava com a venda de livros para sustentar a família.
A paisagem que ele viu pela janela do trem ganharia significado nas décadas seguintes. Juazeiro se tornaria um ponto importante para a expansão da Igreja no norte baiano, enquanto o próprio São Francisco passaria a fazer parte dessa trajetória.
Mas, naquele momento, o trabalho acontecia principalmente no contato entre pessoas.
Um desses encontros ocorreu em uma barbearia.
Pita conheceu Ernestino, um jovem barbeiro que demonstrou resistência ao descobrir que o visitante era adventista. Em vez de encerrar a conversa, Pita propôs que os dois estudassem a Bíblia. Uma semana depois, segundo o relato histórico recuperado em 2021, Ernestino já participava da Escola Sabatina com outros adventistas.
Aquela conversa alcançaria também a geração seguinte.
Genidete Pereira, filha de Ernestino, contou décadas mais tarde ao Notícias Adventistas que a atuação de Pita havia sido fundamental para sua família e para a região. Em seu relato, resumiu aquela influência: “Em Juazeiro e região, sua marca foi fundamental.”
Pessoas que guardaram a memória
Algumas das vozes que fazem parte desta história, ajudam a aproximar o presente de acontecimentos que poderiam permanecer apenas em documentos e datas.
Delzuíta A. Santos tinha nove anos quando foi batizada por Plácido Pita. Já adulta, recordou não somente o próprio batismo, mas também o crescimento da Igreja pelas cidades do sertão.
Na Fazenda Diogo, em Jaguarari, Cândido João Duarte também preservava lembranças daquele período. Aos 90 anos, quando foi entrevistado pelo Notícias Adventistas, contou que conheceu Pita e viu de perto sua passagem pela região, incluindo a realização de batismos.
São memórias individuais que ajudam a dimensionar um processo maior. Antes que o crescimento pudesse ser representado por números, ele aparecia em cenas como uma criança sendo batizada, uma família reunida, um barbeiro começando a estudar a Bíblia ou um colportor chegando a uma nova localidade com livros.
O sertão começa a formar uma rede
Os registros mostram que o movimento não estava restrito a Juazeiro.
Entre 1943 e 1944, adventistas vindos de Pernambuco se estabeleceram na região de Várzea Nova e posteriormente organizaram um grupo. Em 1945, Ramiro Carrero começou a compartilhar sua fé com José Gonçalves, conhecido como “Zé Grande”, na região de Junco e Quixabeira. Ele se tornaria, em 1946, o primeiro adventista batizado naquela região, segundo a Enciclopédia.
Na região de Jacobina, Manoel Veloso, morador de Caatinga do Moura, também teve contato com as crenças adventistas. Embora não tenha sido batizado, seus filhos posteriormente estudaram em instituições adventistas e alguns passaram a atuar como obreiros da Igreja.
Juazeiro, Jaguarari, Senhor do Bonfim, Várzea Nova, Jacobina, Irecê, Junco e Quixabeira começavam, assim, a aparecer nos registros de uma presença que ainda era pequena e geograficamente dispersa.
O marco de 1946 não apaga essas histórias anteriores. Pelo contrário: ajuda a compreender que as sementes já estavam espalhadas quando o trabalho ganhou novo impulso no Vale do São Francisco.
Quando o rio também se tornou caminho
O São Francisco, presente na primeira paisagem observada por Pita ao chegar a Juazeiro, voltaria a aparecer em capítulos posteriores dessa história.
Em 1948, foi construída a lancha Luminar I. A embarcação passou a integrar o trabalho da Assistência Social Adventista e, posteriormente, percorreu municípios do norte da Bahia como Xique-Xique, Barra e Juazeiro.
Os registros fotográficos preservados desse período ajudam a enxergar aquela história: embarcações sobre o São Francisco, moradores reunidos nas margens e equipes chegando a localidades ribeirinhas.
E os relatos acrescentam som àquilo que as fotografias não conseguem registrar.
Maria do Carmo Lima, que recebeu atendimento naquele período, recordou que “o rádio anunciava a chegada da lancha no cais de Juazeiro”. Moradores então se dirigiam à margem para acompanhar a chegada da equipe.
A atuação das lanchas e o desenvolvimento da assistência social adventista no norte da Bahia fazem parte de outro capítulo desta série. Aqui, elas ajudam a mostrar como o rio que aparece no início da história também se transformaria em caminho para sua expansão.
Oito décadas depois
Oitenta anos separam aquela chegada a Juazeiro do cenário encontrado hoje no norte da Bahia.
O território observado por Plácido Pita em 1946 mudou, assim como a presença adventista que começava a ganhar força na região. Os pequenos grupos se multiplicaram, novas gerações assumiram a missão e a história passou a alcançar outras cidades, comunidades e famílias.
Mas talvez a imagem mais simbólica continue sendo aquela do início: Juazeiro de um lado, Petrolina do outro e o Rio São Francisco entre as duas cidades.
Foi diante dessa paisagem que Pita fez sua oração. Naquele momento, ele não poderia enxergar os capítulos que seriam escritos nas décadas seguintes, nem quantas pessoas fariam parte deles.
Hoje, ao retornar a 1946, o que se vê não é apenas o começo de uma instituição, mas o início de uma história construída por pessoas que chegaram, compartilharam aquilo em que acreditavam e deixaram caminhos para quem viria depois.
O Velho Chico continua atravessando a região. E, às suas margens, uma história iniciada há oito décadas continua sendo escrita.
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