Helaine Simon teve o privilégio de ser batizada neste ano pelo pastor e professor Anderson Voos, que foi seu gestor escolar quando ingressou na rede educacional adventista em 1995. (Foto: Reprodução)

Quando procurou uma escola para os filhos em Florianópolis (SC), em 1995, Helaine Simon não imaginava que aquela escolha também mudaria o rumo da própria vida. Professora de português e inglês, ela havia se mudado de Santa Maria (RS) com o marido, Marcos, para a capital catarinense por conta de uma transferência profissional dele.

Durante a busca por uma instituição de ensino para os filhos, conheceu a rede educacional adventista e, pouco tempo depois, surgiu a oportunidade para que ela própria integrasse a equipe escolar. “O dia que eu comecei a trabalhar para a Educação Adventista foi 22 de junho de 1995”, relembra. Mais de 30 anos depois, em setembro de 2026, um novo capítulo chegou à sua trajetória com o batismo na Igreja Adventista Central de Santa Maria.

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Entre uma data e outra, a caminhada ultrapassou o ambiente escolar. Convivência com professores e gestores, mudanças de hábitos, interesse por saúde, leitura, contato contínuo com a Bíblia e com a Novo Tempo, amizades que atravessaram décadas e estudos bíblicos fizeram parte do processo. A decisão religiosa também amadureceu no ambiente familiar, especialmente pelo desejo de Helaine de respeitar as convicções do marido. Hoje, ela reconhece esses diferentes elementos como parte de uma transformação gradual.

Apoio além da sala de aula

Quando começou a atuar em Florianópolis, Helaine percebeu que o papel do professor dentro da instituição ia além do domínio da disciplina que ensinava. Ao ingressar na escola, recebeu livros para estudar e passou a ter contato com obras de Ellen White, autora que influenciou grande parte da filosofia educacional adventista.

Segundo ela, esse preparo também envolvia conhecer os princípios da instituição e estar apta a responder aos questionamentos dos alunos. “Eu li muitas obras... Me deram uma pilha de livros para ler, e eu li, porque o professor adventista tinha que saber responder frente aos alunos aos questionamentos que viriam. Esse foi o primeiro passo”, recorda.

Poucos meses depois, a experiência ganhou uma dimensão mais pessoal. Em janeiro de 1996, Helaine recebeu um diagnóstico de câncer e passou por uma cirurgia. Uma segunda intervenção estava prevista para julho e, durante os meses anteriores, colegas da escola passaram a ajudá-la também com a alimentação. A cantineira Delci adaptava refeições, preparava sucos e buscava alternativas para os períodos em que medicamentos provocavam enjoo, desconforto no estômago e falta de apetite.

Na percepção de Helaine, a recuperação após a segunda cirurgia foi diferente. Ela conta que precisou de menos analgésicos e que o médico se surpreendeu ao encontrá-la com pouca dor e já conseguindo se levantar. Ao ser questionada sobre o que havia mudado, mencionou as alterações feitas em sua alimentação nos meses anteriores. “Esse episódio foi, para mim, um divisor de águas. Até hoje, eu mantenho o que comia na escola e procuro fazer na minha casa da mesma forma”, afirma. A experiência despertou nela uma atenção que permaneceu ao longo dos anos em relação aos hábitos de saúde.

Equipe do Colégio Adventista de Florianópolis (Unidade Estreito), em 1997. Fé nas pequenas atitudes

Além dos livros e dos hábitos de saúde, Helaine destaca a convivência cotidiana como uma das marcas daquele período. Em Florianópolis, trabalhou em duas unidades escolares e acompanhou de perto a atuação do então diretor Anderson Voos e de sua esposa, a coordenadora Vandinha Voos. Foi nas situações do dia a dia que, segundo ela, princípios conhecidos por meio das leituras começaram a ganhar uma dimensão prática.

Helaine recorda especialmente um episódio envolvendo o então gestor. “Eu vi uma pessoa dizer horrores na frente dele, e ele se manteve calmo, sereno... Eu ainda brinquei: ‘Professor do céu, como o senhor resistiu?’. E ele respondeu: ‘Minha filha, confie em Deus. Ele sabe de tudo, temos só que confiar’”, relembra.

Mais tarde, ela presenciou a mesma pessoa retornar para pedir desculpas. Segundo Helaine, Anderson interpretou aquele desfecho a partir da própria fé. Experiências como essa contribuíram para sua compreensão sobre a relação entre crença e comportamento. “Não são as grandes ações que marcam, são as pequenas. Não é apenas falar, é mostrar com o exemplo. Eles ensinam através do exemplo”, ressalta.

Durante o enfrentamento da doença, esse cuidado apareceu de outra forma. Nas férias de julho, enquanto Helaine estava em Santa Maria para a segunda cirurgia, Anderson e Vandinha viajaram de Florianópolis para visitá-la. Na casa da mãe de Helaine, conversaram com a família e fizeram uma oração. “Ela me disse: ‘Helaine, que oração linda. Parece que eles têm luz, minha filha’. Disse também que eu estava muito bem cercada por pessoas boas de coração”, conta. Para a professora, a visita permaneceu como uma demonstração concreta de acolhimento em um momento de vulnerabilidade.

Vínculos que permanecem

Os vínculos construídos naquele período também ultrapassaram a relação profissional. Mesmo décadas depois, Helaine diz lembrar os nomes de muitos antigos alunos e manter contato com estudantes, pais e colegas. Para ela, a dimensão afetiva do ensino foi uma das características que mais a marcaram. “O professor, por meio da forma afetiva, leva esses alunos e essa amizade para o resto da vida”, avalia.

Ao retornar para Santa Maria, Helaine passou por outros ambientes profissionais e percebeu com mais clareza o quanto a experiência nas escolas adventistas havia influenciado sua forma de enxergar as relações no trabalho. “Eu chorava de tanta saudade. Sentia falta daquela união, daquele jeito de as pessoas se relacionarem”, recorda.

Em um período que considera especialmente desafiador de sua trajetória, encontrou na oração uma maneira de lidar com as dificuldades. Ela conta que chegou a se ajoelhar no local de trabalho e dizer: “Senhor, eu Te entrego essa escola em Tuas mãos. Não deixa essa escola fechar, não deixa as pessoas serem más”. Para Helaine, práticas espirituais que antes observava em outras pessoas já começavam a fazer parte da maneira como ela própria enfrentava situações complexas.

Mais tarde, com uma carta de recomendação enviada pelo professor Anderson, Helaine ingressou no Colégio Adventista de Santa Maria, onde permaneceu até julho de 2011. Mesmo depois de deixar definitivamente a rede educacional adventista, os vínculos e os hábitos espirituais construídos ao longo daqueles anos permaneceram.

Helaine (sentada na fileira inferior, à esquerda) com a equipe do Colégio Adventista de Santa Maria em 2006. (Foto: Reprodução) A semente germinou

Helaine continuou lendo a Bíblia, buscando publicações e acompanhando a programação da Novo Tempo. “Ouço todas as manhãs e, quando eles falam de alguma revista, eu escrevo pedindo e eles me mandam”, explica. Entre os materiais de maior interesse estavam os relacionados à alimentação, tema significativo desde o tratamento contra o câncer. Durante esse processo de aprofundamento, Helaine também vinha realizando estudos bíblicos acompanhada por Keylla Muckenberger, amiga dos tempos de escola.

Os convites para o batismo surgiram muitos anos antes de 2026, mas Helaine preferiu respeitar o tempo e as convicções do marido, que não compartilhava da mesma fé. “Eu não ia arrumar atrito na minha residência sem necessidade. Então continuei estudando”, relata.

Com o passar dos anos, Marcos, o esposo da professora, reconheceu que a fé adventista já fazia parte da vida da esposa, chegando a dizer: “Tu já és adventista há muito tempo, só que tu não sabes”. Mais tarde, ele demonstrou apoio e se dispôs a acompanhá-la à igreja, uma aceitação que teve papel fundamental no caminho até o batismo.

A decisão final ganhou força após uma nova conversa com Anderson, que ao longo dos anos se tornou pastor. Mais de três décadas depois de os caminhos dos dois terem se cruzado, ele disse que, caso Helaine decidisse pelo batismo, iria a Santa Maria para realizar a cerimônia.

Ao contar a novidade ao marido, ouviu dele outra frase que a marcou: “Tu nunca mais foste a Helaine de antes. Tu és a Helaine adventista agora”. O apoio familiar, somado ao reencontro com pessoas que haviam participado do início da história, ajudou a consolidar uma decisão construída desde 1995.

No dia 12 de setembro de 2026, finalmente ela foi batizada pastor Anderson Voos. Entre o primeiro contato com a escola e aquela decisão, se passaram 31 anos. “O batismo me tirou um peso das costas. Hoje sou mais leve, mais tranquila, fui renovada”, afirma. Segundo ela, essa sensação já vinha aparecendo durante os estudos bíblicos que antecederam a decisão, mas se tornou ainda mais clara depois da cerimônia.

Helaine foi batizada durante uma programação promovida pelo liderança espiritual do Colégio Adventista de Santa Maria. (Foto: Reprodução)

Para ela, o batismo também representa o desejo de transmitir a outras pessoas aquilo que recebeu ao longo da própria caminhada. “Quero ser o exemplo que eles foram para mim”, afirma, ao lembrar de Anderson, Vandinha e de outras pessoas que, segundo ela, demonstraram a fé principalmente por meio das atitudes.

Os frutos dessa vivência ultrapassaram a decisão pessoal e alcançaram a geração seguinte, tornando-se um legado familiar. “Sempre fiz força para que meus netos fossem para uma escola adventista. Para mim, é a melhor pedagogia”, destaca.

Ao falar sobre a trajetória de Helaine, Voos retoma uma imagem que também utilizou na mensagem apresentada no dia do batismo. “A Educação Adventista planta. Quando a semente vai germinar, não sabemos”, afirma. Para o pastor, essa espera também faz parte da missão. “A certeza é que, quando Cristo estiver perto de voltar, muitas pessoas se entregarão”, acrescenta.

Helaine também reconhece esse tempo como parte da própria história. “Tudo tem seu tempo e sua hora”, resume. Depois de 31 anos de caminhada, o batismo não representa apenas um ponto de chegada, mas o começo de uma nova etapa.

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FONTE/CRÉDITOS: Willian Vieira