Gre-Nal sob tutela: quando a segurança começa a matar o clássico

Há algo errado quando a principal preocupação em torno de um Gre-Nal deixa de ser o futebol e passa a ser impedir o torcedor de ocupar as ruas. O clássico, símbolo de uma rivalidade centenária, virou uma operação de contenção. Para assistir ao jogo das 20 horas no Beira-Rio, o gremista precisa estar às 15h30 na Arena e atravessar a cidade em comboio. Mesmo que more no Menino Deus, a poucas quadras do estádio, não pode simplesmente caminhar até lá e entrar. Precisa cruzar Porto Alegre para depois voltar. Não é apenas uma questão operacional. É um modelo que prefere controlar milhares de torcedores como um bloco único em vez de encontrar soluções melhores.

Torcedores de Inter e Grêmio dividindo o mesmo espaço na arquibancada | abc+



Torcedores de Inter e Grêmio dividindo o mesmo espaço na arquibancada

Foto: Divulgação/Inter

Agora até o churrasco virou problema de segurança

O churrasco antes do jogo no Parque Marinha do Brasil não nasceu ontem. Faz parte da cultura do torcedor colorado. É tão incorporado à rotina dos jogos que o próprio poder público instalou churrasqueiras naquele espaço. Agora, porque ônibus com gremistas poderão passar nas proximidades, a resposta encontrada é restringir o uso das churrasqueiras e evitar a concentração de colorados. Em vez de mudar o trajeto dos ônibus, criar corredores de segurança ou reforçar o isolamento, limita-se o espaço público. É mais fácil acabar com o churrasco.

Querem um grande espetáculo sem aglomeração

A Brigada não quer aglomeração no entorno do estádio. Mas como se faz isso? Alguém conhece um grande jogo de futebol sem gente em volta do estádio? Um grande show sem público chegando cedo, bebendo, comendo, conversando, cantando? A aglomeração não é uma anomalia do futebol. Ela é parte do evento. Segurança pública existe justamente para permitir que milhares de pessoas ocupem um espaço com segurança. Se a solução para evitar problemas for impedir as pessoas de se reunirem, qualquer operação será considerada bem-sucedida. Basta não deixar ninguém chegar perto.

Gaúcho é mais perigoso?

Aqui existe uma contradição difícil de explicar. Quando Corinthians, Flamengo ou outros grandes clubes jogam em Porto Alegre, é possível receber contingentes visitantes muito maiores. No Gre-Nal, a carga destinada ao adversário cai drasticamente. Por quê? A resposta automática será: rivalidade. Certo. Mas rivalidade maior exige operação melhor, inteligência maior, planejamento melhor. Não necessariamente menos gente.

Proteger o futebol, não esvaziá-lo

Ninguém está propondo liberar tudo. Gre-Nal tem histórico de confrontos, e ignorá-lo seria irresponsável. Torcidas organizadas precisam ser acompanhadas, trajetos devem ser protegidos e quem pratica violência deve ser identificado e responsabilizado. Mas há uma diferença enorme entre combater o violento e tratar todo torcedor como um violento em potencial. Quando milhares de pessoas perdem liberdade porque algumas centenas podem causar problemas, alguma coisa falhou.

Estão apequenando o Gre-Nal

Durante décadas nos orgulhamos de vender o Gre-Nal como um dos maiores clássicos do Brasil. Falamos das arquibancadas divididas, da cidade tomada pelo jogo, das bandeiras, das caravanas, dos churrascos, da provocação, do barulho. Aos poucos, vamos retirando tudo isso. Menos visitantes. Menos convivência. Menos rua. Menos festa. Mais grades, comboios, horários absurdos e proibições. Um clássico não fica mais seguro simplesmente porque fica menor. Se continuarmos assim, talvez um dia tenhamos a operação de segurança perfeita, mas talvez sem o jogo.

FONTE/CRÉDITOS: five.integracao