Um projeto que não existiu

O Grêmio apostou alto em Luís Castro. Trouxe uma comissão técnica caríssima, investiu no elenco e vendeu a ideia de um novo projeto. O problema é que esse projeto nunca apareceu dentro de campo. O título gaúcho mascarou muita coisa. Foi conquistado muito mais pelos erros do Internacional do que por um futebol convincente do Grêmio. Depois disso, a temporada apenas confirmou o que já dava para perceber: um time sem processo coletivo confiável, frágil defensivamente, sem personalidade e incapaz de sustentar uma maneira de jogar. Para o tamanho do investimento feito, o retorno foi muito pequeno.

Paulo Pelaipe, Luís Castro e Odorico Roman | abc+



Paulo Pelaipe, Luís Castro e Odorico Roman

Foto: Angelo Pieretti/Grêmio

A hora que passou

Na parada da Copa do Mundo, havia uma oportunidade clara para mudar. O trabalho de Luís Castro não avançava e o time dava todos os sinais de que precisava de outra direção. O departamento de futebol preferiu esperar. Faltou leitura, faltou coragem para tomar uma decisão e sobrou esperança de que o tempo resolveria aquilo que o campo já mostrava não funcionar. Não resolveu. O Grêmio perdeu semanas preciosas insistindo num trabalho que já havia dado sinais suficientes de esgotamento.

A régua do rival

Existe ainda uma armadilha perigosa, que é olhar para o Internacional e concluir que a situação gremista não é tão ruim. É uma régua baixíssima. O Inter começou o ano sabendo das suas limitações financeiras e que teria uma temporada difícil. Joga mal, tem um time fraco e luta para sobreviver. Comparado ao rival, o Grêmio até pode parecer melhor. Mas essa comparação engana. O Grêmio gastou, contratou jogadores caros e montou um elenco milionário. Prometeu muito mais. Entregou muito pouco.

E agora, Renato

Nova direção, novo projeto, treinador caro, reforços e discurso de reconstrução. Meses depois, o Grêmio chega ao desespero e chama Renato para salvar a temporada. Renato pode até conseguir. Conhece o clube, sabe trabalhar nesse ambiente e já mostrou isso outras vezes. Mas sua volta diz muito mais sobre quem o chama do que sobre ele. Depois de tanto falar em projeto, planejamento e mudança de rumo, recorrer novamente ao velho salvador é a confissão de que o plano fracassou. Convenhamos, isso é tudo, menos convicção.

A maior contratação

Sem poder buscar reforços, o Inter fez aquela que Fernando Carvalho certa vez definiu como a maior contratação de uma temporada: salários em dia. Com a ajuda decisiva de Delcir Sonda, o clube quitou as pendências com os jogadores. Décimo terceiro atrasado, parcelas de direitos de imagem, tudo foi colocado em dia. O Inter, inclusive, antecipou pagamentos. Não chega centroavante, meia ou lateral. Mas chega algo fundamental neste momento, que é tranquilidade para trabalhar.

Não é mercenarismo

E não me venham com a história de que jogador ganha muito e, por isso, atraso não deveria fazer diferença. Isso não é mercenarismo. Quem trabalha quer receber no dia combinado, seja qual for o salário. Tem compromissos, família, planejamento. Jogador não é diferente. Um vestiário convivendo com atrasos inevitavelmente carrega esse problema para dentro do campo. Colocar a casa em dia não garante vitória, claro. Mas elimina uma desculpa e, principalmente, devolve tranquilidade a quem precisa decidir jogos.

A iniciativa de Melo

A operação nasceu da reunião do presidente com candidatos e outras pessoas ligadas ao clube, numa tentativa de buscar ajuda para este momento dramático. Roberto Melo estava lá e tomou a iniciativa. Procurou Delcir Sonda e conseguiu viabilizar R$ 20 milhões para colocar as contas com os atletas em dia. Isso salva o Inter da segunda divisão? Evidentemente que não. Mas permite que o grupo pense no que realmente interessa agora: jogar futebol, ganhar as partidas e tirar o Internacional dessa situação.

FONTE/CRÉDITOS: five.integracao