No dia em que escrevo estas palavras, o céu estava lindo. Após dias chuvosos de inverno, o sol brilhava e aquecia o dia aqui onde moro. E, por ser um domingo, aproveitei o bom tempo para fazer uma caminhada e subir o mirante da cidade.

Ao chegar ao pé do morro, a primeira coisa que me chamou a atenção foi o tamanho da fila para entrar no ônibus que vai até lá. Dezenas de pessoas estavam ali para realizar o trajeto.

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Elas teriam o mesmo privilégio que eu – ver a cidade lá do alto –, mas não fariam a mesma jornada. Ao longo do percurso, passei por pessoas que estavam sentadas à beira do caminho descansando um pouco, afinal, a subida é bem cansativa. Por outro lado, havia aqueles que subiam correndo a pé e até mesmo de bicicleta. Tinha gente de todas as idades, de crianças a idosos. Grande parte estava acompanhada, mas alguns faziam o trajeto sozinhos, como eu também estava.

O caminho, apesar de cansativo, era bonito, bem arborizado e cuidado. E isso me fez lembrar da importância de apreciarmos a jornada da nossa vida quando estamos passando por momentos difíceis, por vezes cansativos.

No meu último texto desta coluna, falei sobre a aceitação da realidade. Esse é um ingrediente importante para passarmos por momentos desafiadores da vida. A apreciação da jornada é uma atitude igualmente importante que pode tornar a caminhada ainda mais leve, mesmo que não elimine os problemas.

A importância de aceitar a realidade

Quando eu aceito que as coisas são como são, paro de resistir à realidade e minha mente pode se abrir para a experiência de vivê-la de outra maneira. Apreciar a jornada é uma das maneiras que podemos lidar com as realidades difíceis com as quais nos deparamos. Isso faz bem à saúde da mente e do corpo.

Aquilo para o que direcionamos nossa atenção também influencia a maneira como

experimentamos a realidade. Isso não significa pensar positivo o tempo inteiro, ignorar aquilo que dói ou fingir que está tudo bem. Significa reconhecer que, mesmo em uma fase difícil, a dor não precisa ser a única coisa para a qual olhamos.

Esse é um dos pontos em que a Psicologia Cognitiva e um conhecido conselho bíblico se encontram. Em Filipenses 4:8, Paulo orienta seus leitores a ocuparem o pensamento com aquilo que é verdadeiro, respeitável, justo, puro, amável e digno de louvor. Não se trata de negar a existência das dificuldades. Trata-se de escolher conscientemente onde colocaremos nossa atenção enquanto as atravessamos.

Naquela subida, eu poderia olhar apenas para o quanto ainda faltava. Poderia prestar atenção somente no cansaço das pernas, na inclinação do caminho ou na vontade de chegar logo ao topo. Tudo isso era real. Mas as árvores também eram reais. O céu azul era real. O calor agradável do sol depois de tantos dias de chuva também era real. As pessoas pelo caminho, o privilégio de poder caminhar e tudo o que compunha a paisagem também faziam parte daquela experiência.

A vida é assim. Há períodos em que estamos subindo uma ladeira e não temos a opção de pegar o ônibus. Precisamos atravessar o caminho. Em alguns trechos teremos companhia; em outros, caminharemos sozinhos. Às vezes, avançaremos rapidamente; em outras, precisaremos sentar à beira do caminho para recuperar o fôlego. E descansar não significa desistir da subida.

Não despreze a vista

Talvez você esteja vivendo uma dessas subidas agora. E talvez esteja tão concentrado em chegar ao lugar onde acredita que finalmente ficará bem que não tenha percebido aquilo que ainda existe de bom ao seu redor.

Apreciar a jornada não é agradecer pela dor. Não é romantizar aquilo que está difícil. É não permitir que a dificuldade nos torne incapazes de perceber tudo aquilo que continua existindo enquanto ela acontece.

Quando finalmente cheguei ao mirante, a vista era realmente linda. Mas percebi que algo importante já havia acontecido antes de chegar lá: o caminho também tinha valido a pena. Talvez estejamos esperando demais pelo dia em que finalmente chegaremos ao “mirante” da nossa vida — quando o problema acabar, a resposta chegar, a situação financeira melhorar, o relacionamento se resolver, o sonho se realizar ou a dor passar.

Mas a vida não começa quando chegamos lá. A vida também está acontecendo durante a subida. Por isso, enquanto você continua caminhando em direção ao lugar onde deseja chegar, não se esqueça de olhar ao redor. Descanse quando precisar. Aceite ajuda quando ela aparecer. Perceba as pequenas coisas boas que continuam presentes. Agradeça pelo que ainda pode ser agradecido.

Continue subindo, mas não espere chegar ao topo para começar a viver. Aprecie a jornada.

FONTE/CRÉDITOS: Jefferson Paradello