Luan Pazzini
O que permanece depois que as câmeras vão embora
Dois anos após as enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul, Canoas ainda convive com moradias temporárias, desafios na educação pública e problemas que persistem longe dos holofotes.
O Avião, monumento que se tornou um dos principais símbolos de Canoas.Toda tragédia no Brasil pareceseguir o mesmo roteiro. Primeiro vêm as imagens fortes, a comoção nacional e acorrida de autoridades ao local. Depois aparecem os sobrevoos de avaliaçãoemergencial e as entrevistas de colete. Montam-se comitês de crise. Os anúnciosde reconstrução, as promessas de recursos e os discursos emocionados aparecemcom mais frequência. Por alguns dias e até, às vezes, meses, tudo pareceurgente. A vida pede ajuda.
Passado o impacto inicial, a câmeravai embora, a agenda política muda e quem perdeu a casa fica esperando que apromessa vire parede, ponte, drenagem, contenção, rua segura e moradiadefinitiva.
As fortes chuvas que devastaram oRio Grande do Sul entre o fim de abril e o início de maio de 2024 afetaram maisde 2 milhões de pessoas, deixaram 185 mortos e atingiram 484 municípios doterritório gaúcho. Canoas, cidade localizada na região metropolitana de PortoAlegre e onde minha família mora, foi um dos municípios mais afetados pelatragédia. Ao todo, 44% da população teve os domicílios atingidos pelasenchentes. O bairro Mathias Velho, um dos mais atingidos da cidade, passousemanas submerso e só voltou a ficar completamente sem água após um longoperíodo de inundação. A cidade também liderou o número de mortes confirmadas noestado, com 30 óbitos registrados pela Defesa Civil Estadual. Ainda hoje, doisanos depois, cerca de 500 famílias seguem vivendo em moradias temporárias,enquanto o medo retorna a cada chuva mais forte.
Cheguei ao Rio Grande do Sul pelaprimeira vez após a enchente, no dia 25 de outubro de 2024. Atualmente, moro noRio de Janeiro e desembarcar em um estado que, meses antes, ocupava diariamenteos noticiários do país provoca uma sensação difícil de explicar. Canoas seguiafuncionando: ônibus circulando, comércio aberto, pessoas caminhando pelas ruas.Mas havia algo estranho no ar, como se a cidade tentasse retomar a normalidadesem conseguir esconder completamente as marcas do que viveu.
Com o tempo, fui entendendo que aenchente não termina quando a água baixa. Ela continua nas casas reconstruídaspela metade, nas famílias que ainda aguardam moradia definitiva, no medo quevolta a cada chuva forte e na sensação permanente de que parte da cidade aindaespera soluções que nunca chegam por completo.
Talvez por isso os números,sozinhos, não consigam explicar Canoas.
Segundo dados do Censo 2022 doIBGE, a cidade possui 347.657 habitantes e densidade demográfica de 2.658,15habitantes por quilômetro quadrado. Entre os 497 municípios do Rio Grande doSul, ocupa a 3ª posição em população e a 4ª em densidade demográfica. Nocenário nacional, figura na 79ª posição em população e na 47ª em densidadedemográfica entre os 5.570 municípios brasileiros.
Os indicadores educacionais tambémajudam a construir a imagem de uma cidade estruturada. A taxa de escolarizaçãoentre crianças e adolescentes de 6 a 14 anos foi de 97,17% em 2022. Em 2024,Canoas registrou 43.606 matrículas no ensino fundamental, 11.706 no ensinomédio, além de 92 escolas de ensino fundamental e 33 de ensino médio. Já o IDEBde 2023 apontou nota 5,4 nos anos iniciais e 4,7 nos anos finais da redepública.
À primeira vista, os números ajudama sustentar a imagem de uma das melhores cidades para viver no estado. Masbasta atravessar algumas escolas públicas, conversar com professores ou ouvirfamílias da cidade para perceber que existe uma distância enorme entre osindicadores e a experiência cotidiana.
Nos últimos meses, essa distânciaapareceu de forma ainda mais evidente durante a greve da educação de 2026. Aparalisação, iniciada em 22 de abril e encerrada em 18 de maio, entrou para ahistória local por um motivo simbólico: Canoas não registrava uma greve na áreada educação desde os anos 1990.
Professores e profissionais daeducação denunciaram precarização das escolas, pressão psicológica,desvalorização profissional e falta de condições mínimas de trabalho. Asituação chegou a um ponto em que muitos passaram a se afastar por questões desaúde, não por falta de compromisso, mas pelo desgaste acumulado de trabalharem estruturas que, muitas vezes, já não conseguem sustentar o básico necessáriopara ensinar.
Enquanto isso, a prefeiturainsistia, em suas redes sociais, na ideia de diálogo permanente com acategoria. Entre 22 de abril e 18 de maio de 2026, foram mais de 500manifestações institucionais publicadas apenas no Instagram oficial domunicípio. Nos comentários das próprias publicações, porém, aparecia outracidade: uma cidade que falava sobre escolas deterioradas, professores adoecidose uma sensação crescente de abandono.
Existe algo simbólico nisso.
Canoas possui pontuação geral de51,54 no Índice de Desenvolvimento Sustentável das Cidades Brasil, ocupando aposição 2.172 entre os 5.570 municípios brasileiros, com nível médio dedesenvolvimento sustentável. No Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 4,ligado à educação de qualidade, a cidade aparece com desempenho baixo.
Os dados revelam desafiosimportantes. Em 2024, apenas 66,95% das escolas públicas de ensino fundamentale médio possuíam acesso à internet em um índice considerado adequado pelosparâmetros do ODS. O percentual de crianças de 0 a 3 anos matriculadas em crechesfoi de apenas 24,59%. Já o índice de professores da educação infantil comformação superior ficou em 62,9%, distante da meta considerada ideal.
Talvez seja justamente aí que osrankings revelem seus próprios limites.
Pois cidades não são feitas apenasde indicadores positivos, campanhas institucionais ou posições em listas sobrequalidade de vida. Elas também são definidas pela forma como enfrentam seuspróprios problemas — principalmente depois que a tragédia deixa de ocupar onoticiário.
Nenhum índice mede completamente odesgaste de um professor adoecido. Nenhum ranking traduz a espera de famíliasque ainda tentam reconstruir a própria vida quase dois anos depois da enchente.Nenhuma postagem institucional substitui aquilo que aparece no cotidiano.
Para quem vem de fora, Canoasrevela uma contradição difícil de ignorar: a cidade tenta projetar normalidadeenquanto parte dos seus problemas continua esperando reconstrução.
Talvez esse seja o maior risco dastragédias brasileiras. Não apenas o desastre em si, mas a capacidade que o paístem de se acostumar rapidamente com aquilo que deveria continuar sendo urgente.
Luan Pazzini é jornalista por formação e mestre em Ciências da Comunicação (Unisinos). Doutorando em Comunicação (UFRJ). Email:luanpazzini1@gmail.com




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