Luan Pazzini
O que a educação revela quando o Estado falha
Experiência em uma Sala Maker dentro do sistema prisional expõe os limites da ressocialização e a potência da educação como forma de reconstrução humana.
Em minha coluna de estreia noJornal de Canoas, pergunto: o sistema prisional brasileiro ressocializa? Emquatro meses trocando saberes na Sala Maker — um espaço voltado à tecnologia eà criação dentro do sistema prisional — vi isso de perto. E também vi o queacontece quando a educação insiste em existir.
Durante esse período, participei deum projeto de capacitação em tecnologias digitais voltado à promoção dosdireitos humanos e da cidadania. Iniciamos com 16 alunas e finalizamos com 11. Algumaspassaram a trabalhar fora durante o dia. Outras saíram, buscando uma novachance de viver a vida vivida. Todas tinham o mesmo objetivo: conseguir umtrabalho.
É nesse ponto que a palavra“ressocialização” deixa de ser discurso e vira problema.
Ao mesmo tempo em que trocávamossaberes sobre direitos humanos, ficava evidente que muitos deles não eramcumpridos. Não como exceção, mas como regra. Embora existam esforços para mudaressa realidade, o sistema não falha ocasionalmente — ele funciona assim.
O sistema também tem cor. Entre asalunas, mais da metade se declarou preta ou parda. E as histórias que ouvi — deabandono, racismo e violência, inclusive tentativas de feminicídio — mostramque o encarceramento não começa na prisão. Ele é anterior.
Em meio a essas narrativas, umacena atravessou tudo e mudou o sentido delas, embora não complemente.
Ao final de uma aula, uma apenada quepassava pelo corredor parou diante das grades grossas, pretas, que nosseparavam — eu na Sala Maker, ela do lado fora, mas não livre — e perguntou,rapidamente, se eu era professor. Respondi que sim. Então ela disse:
— Em 10 anos aqui, pela primeiravez, o som de choro e briga foi trocado pelo som da educação.
E foi embora.
A frase não é bonita. Ela é dura!Dura porque revela o que predomina naquele espaço — e o quanto isso énaturalizado.
Durante quatro meses, na minhapermanência na Sala Maker, fiquei sem celular, com o tempo desacelerado. Entreaulas de inglês básico — verbo to be, números, vocabulário — e discussões sobretecnologia e crimes digitais, construímos um espaço em que aprender faziasentido. Escutamos músicas, completamos letras, choramos. “Cada música era umabraço de momentos que vivi lá fora”, me disse uma aluna.
Nada disso resolve o sistema. Masrevela uma brecha. E brechas importam.
Finalizo esse ciclo com a certezade que aprendi mais do que ensinei. Não por romantizar o que vivi, mas porentender que, mesmo em um sistema que insiste em dificultar a ressocialização,a educação produz deslocamentos. Pequenos, talvez, mas reais.
Como lembra Paulo Freire, aeducação muda as pessoas. E isso, por si só, já é uma forma de confronto comqualquer estrutura que dependa da permanência das coisas como estão.
Nos vemos daqui a 15 dias.





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