Crescer no campo missionário é carregar histórias, despedidas, descobertas e experiências que ajudam a formar quem se é. (Imagem gerada por IA)

Muitas vezes os obstáculos dos missionários não estão somente na adaptação à nova cultura ou nos desafios dos novos trabalhos, mas sim na adaptação familiar e no desenvolvimento do lar, seja em qual cidade ou país estiverem.

Os relatos a seguir foram escritos por filhos de famílias missionárias, e cada um deles descreve sua própria experiência de crescer no campo missionário.

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Olá. Meu nome é Julián e sou filho de missionários.

Nasci em Eldoret, no Quênia. Meus pais, Dr. Valentin Omonte e Dra. Susana Tito, são dentistas. Eles se mudaram de La Paz, na Bolívia, para o Quênia, em 2009, como missionários voluntários na Universidade da África Oriental, em Baraton. A princípio, planejavam servir por apenas um ano, mas esse um ano acabou se transformando em 16 anos fora da Bolívia.

Nasci em 2011, junto com minha irmã gêmea, Jael. Não me lembro de muita coisa dos meus primeiros anos no Quênia; apenas de algumas lembranças vagas de quando morávamos no campus universitário em Baraton.

Em 2014, tudo mudou. Meus pais foram chamados para servir em Kigali, Ruanda, na Clínica Odontológica Adventista de Kigali. Meu pai assumiu o cargo de diretor, e minha mãe continuou trabalhando como dentista. Foi ali que começaram minhas verdadeiras lembranças da infância.

Durante os anos do ensino fundamental, estudei na Green Hills Academy International School. Nessa época, comecei a me interessar por Lego, origami, ciência e pelo espaço interestelar. Fiz bons amigos, mas nem sempre foi fácil. Muitos dos meus amigos se mudavam porque suas famílias também eram de diferentes países e precisavam estar sempre mudando de lugar. Eu tinha a sensação de que não conseguia manter meus amigos por muito tempo. Isso mudou quando conheci Meng e Ryan.

Meng é da China e não acreditava em Deus. Ryan é brasileiro e cristão (Testemunha de Jeová). Embora nenhum dos dois fosse adventista, eles se tornaram meus melhores amigos.

Certo dia, eles me viram orando. Eu geralmente tentava orar em silêncio porque estudava em uma escola não adventista, mas, dessa vez, eles perceberam. Meng me perguntou o que eu estava fazendo.

Eu disse que estava apenas orando a Deus e pedindo Sua ajuda.

Meng deu uma pequena risada. Como ele era meu amigo, não levei aquilo muito a sério. Tentei explicar, mas ele não tinha certeza se acreditava em Deus.

Meus pais também ajudaram a iniciar um Clube de Desbravadores e Aventureiros na igreja da Universidade Adventista da África Central. Nós nos reuníamos todos os sábados à tarde e, às vezes, aos domingos para praticar esportes, aprender sobre Deus por meio da natureza e participar de atividades. Fiz muitos amigos próximos durante meu tempo como Aventureiro e, agora, como Desbravador. O clube continuou crescendo a cada ano e, neste ano, estamos comemorando dez anos desde sua fundação.

Um dia, convidei Meng e Ryan para participar do clube. Depois de conversarem com os pais deles, eles concordaram em vir. Sentiram-se muito bem acolhidos, e compartilhamos muitos momentos especiais juntos que jamais esquecerei.

Então, aconteceu algo que mudou a maneira como eu compreendia o que significa ser filho de missionários.

“Percebi que, mesmo de pequenas maneiras, posso compartilhar o amor de Deus com outras pessoas.”

Certo dia, na Green Hills, vi Meng sentado em silêncio, com a cabeça baixa. Perguntei o que ele estava fazendo, mas, a princípio, ele não quis responder. Mais tarde, ele me contou que estava orando, apenas para tentar.

Meu amigo, que não acreditava em Deus, estava orando.

Isso tocou profundamente meu coração. Fiquei tão feliz que corri para contar aos meus pais. A partir daquele momento, comecei a entender o que significa ser filho de missionários. Percebi que, mesmo de pequenas maneiras, posso compartilhar o amor de Deus com outras pessoas. Oro para que, um dia, Meng seja batizado.

Atualmente, estudo na Maxwell Adventist Academy, no Quênia. Sinto como se tivesse voltado ao lugar onde tudo começou. Embora a cultura seja diferente da de Ruanda, sinto-me à vontade. Há desafios, mas acredito que Deus está sempre no controle.

Sinto falta dos meus pais, que continuam servindo em Ruanda, na Clínica Odontológica Adventista de Kigali.

No futuro, quero ser um missionário como meus pais. Quero ajudar nos clubes, no ministério da criança e, quem sabe, ser diretor ou médico, assim como eles. O exemplo deles me inspira a servir a Deus onde quer que eu esteja. Também sou muito grato pela minha irmã gêmea, Jael. Ela me ajuda nos estudos e me incentiva a continuar.

Que Deus abençoe todos os filhos de missionários ao redor do mundo. Que possamos ser uma luz para outras crianças que precisam de Jesus em suas vidas.

A história de Tereza

Já visitei muitos países, como Bélgica, Estados Unidos, Egito e meu próprio país, a Ucrânia. É divertido ir de um país para outro, mas é triste deixar a própria casa. O lugar onde você mora pode ser pequeno ou grande, mas é sempre interessante.

É interessante aprender coisas novas, aprender novos idiomas e frequentar novas escolas. Quando você vai de um país para outro, pode conhecer muitas coisas novas, como flores, árvores e pessoas diferentes. É divertido explorar novos lugares, ver animais diferentes e até brincar de novos jogos. Também é triste deixar para trás seus próprios animais e pertences. Algumas coisas você realmente não precisa, mas outras são indispensáveis, como a família.

A história de Jael

Crescer em uma família de missionários nem sempre é como as pessoas imaginam.

Meu nome é Jael Omonte e sou da Bolívia. Nasci no Quênia, mas passei a maior parte da minha vida em Ruanda. Por isso, vivo longe do que muitas pessoas chamariam de “lar”, mas, com o tempo, aprendi a lidar com isso e a me adaptar a diferentes ambientes.

Por ser da Bolívia, um país da América do Sul, mas ter crescido principalmente em Ruanda, percebi que, às vezes, sei muito pouco sobre minhas próprias origens. É estranho dizer de onde sou, porque não me sinto totalmente ligada a um único lugar. Quando as pessoas me perguntam onde é minha casa, nem sempre sei como responder. É o lugar onde nasci, de onde minha família veio ou onde vivi por mais tempo? Isso é algo que ainda estou tentando entender.

“Acredito que lar não é apenas um lugar, mas uma combinação de todos os lugares, pessoas e experiências que fizeram de mim quem sou hoje.”

Como filha de missionários, muitas vezes a vida envolve doação, assim como Jesus fez. Jesus é um modelo para mim porque me ensina a servir aos outros e a dar mais do que receber. Isso nem sempre é fácil, especialmente quando sinto que estou renunciando a coisas que outras crianças da minha idade podem ter. Às vezes, pode ser difícil, mas, ao mesmo tempo, isso me ajuda a crescer e a compreender melhor as necessidades das outras pessoas.

Outra parte importante da minha vida é aprender sobre novas culturas. Mudar-me e viver em diferentes lugares permitiu-me conhecer modos de vida que muitas pessoas talvez nunca tenham a oportunidade de conhecer. Aprendi diferentes tradições, maneiras de falar e formas de as pessoas se relacionarem umas com as outras. Às vezes, sinto que conheço mais sobre outras culturas do que sobre a minha própria, o que pode ser um pouco estranho. Mas isso também me deixa feliz, porque posso me conectar com pessoas de diferentes origens e compreendê-las melhor.

Embora existam muitas coisas boas nessa vida, nem sempre é fácil. Às vezes, sinto que não pertenço completamente a lugar nenhum. Embora Ruanda seja como um lar para mim, porque vivi lá durante a maior parte da minha vida, ainda existem momentos em que sinto falta da minha própria cultura. Gostaria de poder me reconectar mais com ela e compreendê-la melhor, em vez de conhecer apenas uma pequena parte dela.

Também há momentos em que sinto que não estou no lugar certo. As pessoas ao meu redor podem pensar de maneira diferente, ter crenças diferentes e enxergar o mundo de formas diferentes daquelas a que estou acostumada. Isso pode fazer com que eu me sinta diferente ou até um pouco perdida às vezes. Nem sempre é fácil tentar se encaixar e, ao mesmo tempo, preservar quem você é.

Ao mesmo tempo, ser filha de missionários me ensinou lições importantes. Ensinou-me a ser flexível, a compreender os outros e a enxergar o mundo a partir de diferentes perspectivas. Aprendi que nem todos vivem da mesma maneira, e tudo bem. Na verdade, isso é algo que aprendi a valorizar.

Também me lembro de momentos em que precisei sair da minha zona de conforto para conhecer pessoas novas ou me adaptar a um ambiente diferente, por exemplo. No início, pode ser desconfortável e até um pouco assustador, mas, com o tempo, fica mais fácil. Essas experiências me ajudaram a me tornar mais forte e mais confiante em mim mesma.

Embora eu não conheça tanto quanto gostaria sobre meu país de origem, ainda sinto orgulho de onde venho. Ao mesmo tempo, sou grata pela vida que tenho como filha de missionários. Ela me deu oportunidades de aprender, crescer e vivenciar coisas que muitas pessoas talvez nunca tenham a chance de experimentar.

No fim, ser filha de missionários nem sempre é fácil, mas é algo significativo. Essa experiência moldou quem eu sou e continua moldando quem estou me tornando. Ainda estou aprendendo, crescendo e descobrindo o que “lar” realmente significa para mim. Por enquanto, acredito que lar não é apenas um lugar, mas uma combinação de todos os lugares, pessoas e experiências que fizeram de mim quem sou hoje.

A versão original foi publicada no site da Adventist Review.

Julián Omonte, Tereza Poniatovska, e Jael Omonte são estudantes da Maxwell Adventist Academy, em Nairóbi, Quênia. Julián e Jael são irmãos gêmeos adolescentes, da Bolívia, e Tereza é ucraniana.

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FONTE/CRÉDITOS: Maita Tôrres