Ariana Souza, colaboradora da Associação Bahia Norte, acompanhou de perto a transição da Associação Bahia Central para a Missão Bahia Norte e guarda memórias dos desafios de comunicação e distância enfrentados naquele período. (FOTO: arquivo ABN.)

Antes das mensagens instantâneas, das videochamadas e dos sistemas integrados, uma ligação entre a administração da Igreja e uma pequena comunidade do interior podia começar em um orelhão.

Quando trabalhava na Associação Bahia Central, em Feira de Santana, Ariana Souza atendia voluntários de igrejas espalhadas pelo território que hoje integra a Associação Bahia Norte. Naquele período, nem todos tinham telefone em casa ou celular. Por isso, encontrar uma pessoa podia depender da ajuda de moradores da própria comunidade.

“Às vezes, a gente ligava para um orelhão e perguntava pelo irmão. A pessoa dizia que conhecia, pedia para ligar novamente depois de uma hora e ia chamá-lo”, recorda Ariana. Segundo ela, mesmo quem não pertencia à Igreja frequentemente sabia identificar os adventistas daquela localidade.

Além disso, documentos e remessas percorriam longas distâncias. Boa parte desse fluxo dependia dos Correios. Durante uma greve, Ariana viu membros se organizarem para que os materiais chegassem à sede em Feira de Santana. Naquele contexto, a dificuldade de comunicação reforçava a necessidade de aproximar a administração das igrejas do norte baiano.

Essa distância ajuda a explicar uma trajetória administrativa marcada por sucessivas reorganizações. Ao longo das décadas, à medida que a Igreja cresceu, novas estruturas surgiram para acompanhar comunidades cada vez mais espalhadas pelo território.

Uma administração que acompanhou o crescimento

A primeira estrutura administrativa adventista a receber o nome do estado surgiu em 1919, com a criação da Missão Bahia. O campo atendia Bahia e Sergipe e, portanto, também abrangia o território que atualmente corresponde ao norte baiano.

Com o passar dos anos, a expansão pelo interior trouxe novos desafios. Em 1945, a Igreja criou a Missão Rio São Francisco, com sede em Pirapora, Minas Gerais. O novo campo acompanhava a presença adventista ao longo do rio em áreas de Minas Gerais, Bahia e Sergipe.

Membros da Igreja Adventista de Xique-Xique posam em frente ao templo, em registro histórico da presença adventista no norte da Bahia. (Foto: Arquivo ABN.)

Nesse contexto, em 1946, o trabalho adventista ganhou novo impulso no Vale do São Francisco com a chegada de Plácido da Rocha Pita a Juazeiro, marco histórico que completa 80 anos em 2026.

No entanto, a experiência da Missão Rio São Francisco durou cerca de uma década. Em 1955, a estrutura foi dissolvida diante de desafios relacionados à extensão territorial, comunicação e manutenção administrativa.

Com isso, a parte baiana voltou a integrar a estrutura responsável pela Bahia e Sergipe.

Do campo estadual às administrações regionais

Nas décadas seguintes, a Igreja continuou se expandindo. Em 1986, a Missão Bahia passou à condição de Associação Bahia. Naquele momento, a estrutura administrava 108 igrejas e 26.491 membros.

Mais tarde, entre os anos 1990, a Igreja experimentou um sistema de administrações regionais. A proposta buscava aproximar a liderança de áreas que estavam distantes da sede.

Dessa forma, uma lógica se repetia: à medida que a presença adventista avançava pelo estado, aumentava também a necessidade de reduzir as distâncias entre administração e igrejas locais.

Templo adventista em Campo Verde, no município de Quixabeira, integra a presença da Igreja Adventista no norte da Bahia. (FOTO: arquivo ABN.)

Em 2004, uma nova reorganização deu origem à Missão Bahia Central, sediada em Feira de Santana. A partir daí, o norte da Bahia passou a integrar essa nova estrutura.

Posteriormente, o campo alcançou a condição de Associação Bahia Central.

Foi nesse período que Ariana passou a atender, ainda à distância, muitos dos voluntários que serviam nas igrejas do norte baiano.

Quando os relatórios ganharam rostos

Mais tarde, durante a implantação de um novo sistema administrativo, Ariana percorreu diferentes distritos para treinar voluntários das igrejas.

Com as viagens, pessoas que ela conhecia apenas por telefone, e-mail ou documentos passaram a ganhar rosto e história.

Em uma dessas ocasiões, depois de percorrer estrada de terra, Ariana chegou à casa simples de uma viúva que colaborava com a Igreja. Na fruteira havia apenas uma manga. Ainda assim, a anfitriã insistiu em oferecê-la.

“Eu não queria comer porque percebi que era a única fruta que ela tinha. Então falei: ‘Vamos dividir a manga’. A gente comeu e conversou. Foi a melhor manga da vida”, relembra.

A partir desses encontros, Ariana passou a enxergar além das remessas e dos registros administrativos. Por trás dos relatórios estavam pessoas que, mesmo em comunidades distantes, mantinham o trabalho cotidiano das igrejas.

A necessidade de estar mais perto

Em 2011, dirigentes da Associação Bahia Central e da União Leste Brasileira começaram a estudar uma nova reorganização territorial.

O crescimento da Igreja estava entre os fatores considerados para a criação de uma estrutura específica para o norte do estado. A partir daí, a proposta passou pelas instâncias administrativas da denominação.

Para Ariana, a necessidade de aproximação já era percebida no cotidiano.

A comunicação com pastores, tesoureiros e líderes locais ainda enfrentava obstáculos. Além disso, documentos dependiam dos Correios e o contato por telefone nem sempre era simples.

“Eu percebia que existia uma necessidade muito grande de estar mais perto deles. O acesso seria mais fácil e o contato também”, recorda.

Juazeiro passa a sediar o novo campo

A Igreja escolheu Juazeiro para sediar a nova unidade administrativa. A localização estratégica no semiárido e a conexão regional com Petrolina contribuíram para a decisão.

Em novembro de 2013, ocorreu a Assembleia de Organização e Instalação da nova estrutura. No ano seguinte, a Missão Bahia Norte passou a integrar oficialmente a organização denominacional.

O campo começou com 24.227 membros distribuídos em 354 congregações.

Prédio que sediou a Missão Bahia Norte em Juazeiro durante os primeiros anos da nova estrutura administrativa. Atualmente, o espaço abriga a sede da ADRA no município.

Prédio que sediou a Missão Bahia Norte em Juazeiro durante os primeiros anos da nova estrutura administrativa. Atualmente, o espaço abriga a sede da ADRA Juazeiro. (FOTO: arquivo ABN.)

Assim, depois de décadas em que as comunidades do norte baiano eram acompanhadas por administrações localizadas a centenas de quilômetros, a região passou a contar com uma estrutura própria.

O pastor Weber Thomas, presidente da Associação Bahia Norte, lembra do período em que a administração responsável pelo território estava em Salvador.

“Lembro de quando a sede da Igreja era em Salvador. Para chegar a Juazeiro eram cerca de 530 quilômetros, e para Barra a distância era ainda maior. A Associação em Juazeiro aproximou os líderes, trouxe mais fluidez aos processos e fez com que a Igreja pudesse avançar de maneira mais próxima das comunidades”, afirma.

De Missão a Associação

Nos anos seguintes, a nova estrutura avançou em seu processo de consolidação.

Em 2018, a Divisão Sul-Americana aprovou a recomendação para a mudança de status da Missão Bahia Norte. A avaliação reconheceu sua consolidação financeira e organizacional.

Com isso, o campo passou à condição de Associação Bahia Norte.

O crescimento também podia ser observado no número de membros. Em abril de 2019, a região já se aproximava dos 30 mil adventistas.

Ao mesmo tempo, a mudança de status trouxe novas responsabilidades para a liderança.

“É uma honra olhar para uma história que começou pequena e perceber o tamanho que o campo alcançou. É uma alegria, mas também uma grande responsabilidade continuar essa história”, afirma Thomas.

O território em 2026

Atualmente, a Associação Bahia Norte reúne 34.911 membros e 179 igrejas, distribuídos em oito sub-regiões: Salitre, Jacobina, Juazeiro, Irecê, Ponto Novo, Capim Grosso, Quixabeira e Senhor do Bonfim.

Além disso, o território conta com 1.434 Pequenos Grupos.

Entre as novas gerações, são 14.283 jovens, 6.157 desbravadores e 3.134 aventureiros.

Sede administrativa da Associação Bahia Norte, em Juazeiro, acompanha atualmente um território com 34.911 membros distribuídos em oito sub-regiões do norte baiano. (FOTO: arquivo ABN.)

Na área educacional, duas instituições adventistas estão em funcionamento, em Juazeiro e Jacobina. Uma terceira unidade está em construção em Irecê e tem inauguração prevista ainda para 2026.

Segundo Weber Thomas, o crescimento permanece em movimento. Nos últimos quatro anos, aproximadamente 30 novos grupos foram estabelecidos em diferentes localidades.

Alguns nasceram de Pequenos Grupos. Outros surgiram por meio de ações evangelísticas ou de igrejas que iniciaram novas congregações.

Por isso, o presidente aponta as novas gerações e a formação de lideranças entre os desafios dos próximos anos.

“Precisamos investir na identidade adventista, na liderança, nas novas gerações e no discipulado. É unir os mais experientes aos mais novos em uma grande rede de comprometimento para continuar avançando”, destaca.

Uma história vista dos dois lados

Ariana acompanhou parte dessa transformação de perspectivas diferentes.

Primeiro, em Feira de Santana, atendia pessoas que estavam a centenas de quilômetros. Depois, no norte da Bahia, encontrou voluntários com quem havia se comunicado durante anos apenas por telefone, e-mail ou acesso remoto.

Algumas dessas pessoas, inclusive, posteriormente se tornaram colaboradoras da própria Associação Bahia Norte.

Além disso, Ariana acompanhou a preparação da nova estrutura administrativa em Juazeiro.

Durante uma visita, subiu ao prédio ainda sem acabamento. Do alto, olhou em direção à ponte que liga Juazeiro a Petrolina. Naquele momento, acreditava que estava ajudando a construir uma estrutura onde provavelmente não trabalharia.

Pouco tempo depois, seguiu para outro campo.

Anos mais tarde, porém, voltou.

“Subi naquele prédio quando ainda estava no tijolo e pensei que estava ajudando a construir algo onde talvez nunca fosse trabalhar. Depois fui para outro campo e, anos mais tarde, voltei justamente para a Associação Bahia Norte. Não tem como não me sentir parte dessa história”, conta.

Distâncias que ficaram menores

Ao longo das décadas, nomes administrativos mudaram, territórios foram divididos e novas sedes surgiram. Entretanto, por trás dessas reorganizações havia uma realidade constante: uma Igreja alcançando novas cidades e formando novas comunidades.

A Missão Bahia Norte começou com 24.227 membros. Hoje, a Associação Bahia Norte reúne 34.911 pessoas, 179 igrejas e mais de 1,4 mil Pequenos Grupos espalhados por oito sub-regiões.

O território que um dia dependia de cartas, remessas pelos Correios e ligações para orelhões passou a contar com uma administração instalada dentro da própria região.

Assim, nos 80 anos desse marco histórico, a trajetória administrativa do norte da Bahia mostra que o crescimento não mudou apenas números, nomes ou mapas.

Também encurtou distâncias entre pessoas.

Esta reportagem integra a série especial “80 anos: uma história de fé, missão e transformação no norte da Bahia”, que recupera acontecimentos, pessoas e mudanças que marcaram oito décadas do crescimento da presença adventista na região.

FONTE/CRÉDITOS: alejandro.silva