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Toda tragédia no Brasil parece seguir o mesmo roteiro. Primeiro vêm as imagens fortes, a comoção nacional e a corrida de autoridades ao local. Depois aparecem os sobrevoos de avaliação emergencial e as entrevistas de colete. Montam-se comitês de crise. Anúncios de reconstrução, as promessas de recursos e os discursos emocionados aparecem com mais frequência. Por alguns dias e, às vezes, meses, tudo parece urgente! A vida pede ajuda.
Passado o impacto inicial, a câmera vai embora, a agenda política muda e quem perdeu a casa fica esperando que a promessa vire parede, ponte, drenagem, contenção, rua segura e moradia definitiva.
As fortes chuvas que devastaram o Rio Grande do Sul entre o fim de abril e o início de maio de 2024 afetaram mais de 2 milhões de pessoas, deixaram 185 mortos e atingiram 484 municípios do território gaúcho. Canoas, cidade localizada na região metropolitana de Porto Alegre, e onde minha família mora, foi um dos municípios mais afetados pela tragédia. Ao todo, 44% da população teve os domicílios atingidos pelas enchentes. O bairro Mathias Velho, um dos mais atingidos da cidade, passou semanas submerso e só voltou a ficar completamente sem água após um longo período de inundação. A cidade também liderou o número de mortes confirmadas no estado, com 30 óbitos registrados pela Defesa Civil Estadual. Ainda hoje, dois anos depois, cerca de 500 famílias seguem vivendo em moradias temporárias, enquanto o medo retorna a cada chuva mais forte.
Cheguei ao Rio Grande do Sul pela primeira vez, após a enchente, no dia 25 de outubro de 2024. Moro no Rio de Janeiro, e desembarcar em um estado que, meses antes, ocupava diariamente os noticiários do país provoca uma sensação difícil de explicar. Canoas seguia funcionando: ônibus circulando, comércio aberto, pessoas caminhando pelas ruas. Mas havia algo estranho no ar. Como se a cidade tentasse retomar a normalidade sem conseguir esconder completamente as marcas do que viveu.
Com o tempo, fui entendendo que a enchente não termina quando a água baixa.
Ela continua nas casas reconstruídas pela metade, nas famílias que ainda aguardam moradia definitiva, no medo que volta a cada chuva forte e na sensação permanente de que parte da cidade ainda espera soluções que nunca chegam por completo.
Talvez por isso os números, sozinhos, não consigam explicar Canoas.
Segundo dados do Censo 2022 do IBGE, a cidade possui 347.657 habitantes e densidade demográfica de 2.658,15 habitantes por quilômetro quadrado. Entre os 497 municípios do Rio Grande do Sul, Canoas aparece na 3ª posição em população e na 4ª em densidade demográfica. No cenário nacional, ocupa as posições 79 e 47 entre os 5.570 municípios brasileiros.
Os indicadores educacionais também ajudam a construir a imagem de uma cidade estruturada. A taxa de escolarização entre crianças e adolescentes de 6 a 14 anos foi de 97,17% em 2022. Em 2024, Canoas registrou 43.606 matrículas no ensino fundamental, 11.706 no ensino médio, com 92 escolas de ensino fundamental e 33 de ensino médio. Já o IDEB de 2023 apontou nota 5,4 nos anos iniciais e 4,7 nos anos finais da rede pública.
À primeira vista, os números ajudam a sustentar a imagem de uma das melhores cidades para viver no estado. Mas basta atravessar algumas escolas públicas, conversar com professores ou ouvir famílias da cidade para perceber que existe uma distância enorme entre os indicadores e a experiência cotidiana.
Nos últimos meses, essa distância apareceu de forma ainda mais evidente durante a greve da educação de 2026. A paralisação, iniciada em 22 de abril e encerrada em 18 de maio, entrou para a história local por um motivo simbólico: Canoas não registrava uma greve da educação desde os anos 1990.
Professores e profissionais da educação denunciaram precarização das escolas, pressão psicológica, desvalorização profissional e falta de condições mínimas de trabalho. A situação chegou a um ponto em que muitos passaram a se afastar por questões de saúde. Não por falta de compromisso, mas pelo desgaste acumulado de trabalhar em estruturas que, muitas vezes, já não conseguem sustentar o básico necessário para ensinar.
Enquanto isso, a prefeitura insistia, em suas redes sociais, na ideia de diálogo permanente com a categoria. Entre 22 de abril e 18 de maio de 2026, foram mais de 500 manifestações institucionais publicadas apenas no Instagram oficial do município. Nos comentários das próprias publicações, porém, aparecia outra cidade. Uma cidade que falava sobre escolas deterioradas, professores adoecidos e sensação crescente de abandono.
Existe algo simbólico nisso.
Canoas possui pontuação geral de 51,54 no Índice de Desenvolvimento Sustentável das Cidades Brasil, ocupando a posição 2.172 entre os 5.570 municípios brasileiros, com nível médio de desenvolvimento sustentável. No Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 4, ligado à educação de qualidade, a cidade aparece com desempenho baixo.
Os dados revelam desafios importantes. Em 2024, apenas 66,95% das escolas públicas de ensino fundamental e médio possuíam acesso à internet em um índice considerado adequado pelos parâmetros do ODS. O percentual de crianças de 0 a 3 anos matriculadas em creches foi de apenas 24,59%. Já o índice de professores da educação infantil com formação superior ficou em 62,9%, distante da meta considerada ideal.
Talvez seja justamente aí que os rankings revelem seus próprios limites.
Porque cidades não são feitas apenas de indicadores positivos, campanhas institucionais ou posições em listas sobre qualidade de vida. Elas também são definidas pela forma como enfrentam seus próprios problemas — principalmente depois que a tragédia deixa de ocupar o noticiário.
Nenhum índice mede completamente o desgaste de um professor adoecido. Nenhum ranking traduz a espera de famílias que ainda tentam reconstruir a própria vida quase dois anos depois da enchente. Nenhuma postagem institucional substitui aquilo que aparece no cotidiano.
Para quem vem de fora, Canoas revela uma contradição difícil de ignorar: a cidade tenta projetar normalidade enquanto parte dos seus problemas continua esperando reconstrução.
Talvez esse seja o maior risco das tragédias brasileiras. Não apenas o desastre em si, mas a capacidade que o país tem de se acostumar rapidamente com aquilo que deveria continuar sendo urgente.
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